
Olá, pessoal!
Essa semana o nosso programa homenageou o poeta e quadrinista
potiguar Moacy Cirne, cuja obra
percorre as fronteiras ilimitadas da literatura norte-riograndense.
Ele administra o blog www.balaiovermelho.blogspot.com
além de escrever O Livro dos Livros, parafraseando de maneira muito criativa alguns livros sagrados.O segundo testamento
é o de Maria Maria que encontra-se postado no seu blog.
O LIVRO DOS LIVROS
SEGUNDO TESTAMENTO
1.
O livro de Maria Maria
E o Coral do Seridó,
constituído por Lucas, Mateus, João e Marcos,
em ritmo de xote marroquino,
cantou para os povos da madrugada:
Em São José, no sítio Caatinga Grande,
há um casal humilde e trabalhador -
Joaquim Branco, o marido; Santana de Santana, a mulher.
Os dois teem uma filha mui formosa;
Maria Maria é o seu nome.
E se Joaquim é vaqueiro e Santana doceira é,
Maria Maria, aos 16 anos, já é bordadeira das boas,
com seus jasmins, girassois e querubins,
com seus cajás, bogaris e maracujás.
E Maria Maria, morenice moreneza,
foi prometida em casamento a Zé da Carpintaria,
cara honesto, esforçado e caladão,
um verdadeiro galado(¹) do sertão.
Mas a jovem, donzela e recatada,
depois de suas tarefas domésticas,
gostava de caminhar. E caminhava.
E numa dessas caminhadas pelo sítio,
na direção da Passagem das Traíras,
sozinha, com seus sonhos e sua morenitude,
um rapaz esbelto e boa pinta encontrou.
Ligeiramente agalegado, com roupas brancas e douradas,
logo se apresentou:
"Ave, cheia de graça! Eu sou Gabriel Trovador".
Sua cara de anjo tanta confiança inspirava
que a jovem Maria Maria segui-lo resolveu.
E por duas horas os dois juntos ficaram.
E os dois riam e os dois se olhavam.
E os dois se doçuravam.
E Gabriel Trovador, por fim, lhe disse:
"És uma jovem tão maravilhosa e tão envolvente
que dentro de nove meses serás mãe de um ser especial".
"Como assim?", espantou-se Maria Maria,
"Ainda não me casei".
"Não importa", falou Gabriel Trovador,
"o pai da criança é um espírito também especial".
"Preciso voltar para casa, posso vê-lo de novo?",
suspirou a filha de São José, com tristeza no olhar.
"Não, sou um viajante das estrelas
e para outros mundos preciso partir".
E Gabriel Trovador partiu.
E Maria Maria, em clima de raro alumbramento,
voltou para casa. A noite já se anoitecia.
E Maria Maria de repente sentiu-se tocada pela poesia.
E cantou para si mesma,
num misto de apreensão e felicidade:
"Eu me celebro como os ramos de jurema
que se deitam sobre as águas.
Ai, meu doce anjo trovador,
de boas novas anunciador,
só a mulher é trigo,
só seu ventre multiplica,
e por isso é eterna,
e por isso é terra"(²).
Naquela noite Maria Maria começou a tecer
o mais belo bordado de sua vida.
Próximo capítulo:
O nascimento de Aijesus da Cruz
Notas:
(¹) Galado : Sortudo (no presente caso). Dependendo do contexto, há outros significados para galado, em geral depreciativos.
(²) Os dois primeiros e mais o quinto, o sexto e o sétimo versos, milagrosamente, seriam redimensionados por uma poeta seridoense do séc. XXI da Era Comum, a curraisnovense Maria José Gomes, através de dois poemas.
Moacy Cirne, 28 de junho de 2009

